Acidente de Bhopal faz 30 anos e ainda deixa sequelas

sábado, 17 de janeiro de 2015
"Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar."
Manoel de Barros  -  Memórias inventadas

A cidade de Bhopal está localizada na região central da Índia e é capital do estado de Madya Pradesh, com uma população de cerca de 2,7 milhões de habitantes. Bhopal é bastante desenvolvida, abrigando grande número de indústrias do setor eletroeletrônico, de manufatura, tecelagem e químico. Baseado nestas poucas informações, a cidade pouco se distingue das outras dezenas de cidades indianas de porte e atividades econômicas semelhantes, a não ser por um acontecimento: o acidente com vazamento de gases tóxicos na fábrica da Union Carbide.
O acidente ocorreu há 30 anos, no dia 3 de dezembro de 1984, afetando de imediato e em diversos graus cerca de 500 mil pessoas. O vazamento de mais de 40 toneladas de 32 tipos gases tóxicos, entre os quais o metil isocianato usado para a fabricação de pesticidas para uso na agricultura, provocou a morte imediata de 3.787 pessoas, segundo dados oficiais do governo do estado de Madya Pradesh. Dados posteriores de uma comissão de investigação do estado indiano davam conta de que 558.125 pessoas foram afetadas de alguma maneira pelo vazamento do gás, incluindo 38.478 parcial ou temporariamente debilitadas e aproximadamente 3.900 severa ou permanentemente atingidas. Além destes, milhares de outros moradores de Bhopal sofrem de sequelas do acidente, apresentando casos de malformação de fetos, doenças crônicas nos olhos, no sistema respiratório, cardíaco e neurológico. A revista americana “Mother Jones” publicou declaração de um médico que atua em clínicas para afetados pelo desastre, na qual diz que “cerca de 120 a 150 mil sobreviventes ainda lutarão com problemas de saúde como distúrbios neurais, de formação e crescimento, ginecológicos, dificuldades respiratórias e elevadas taxas de tuberculose e câncer”.
Até hoje persiste o debate sobre as causas deste desastre, o maior já ocorrido com uma indústria em todo o mundo. Dados levantados durante as investigações mostraram que antes do vazamento ocorreram acidentes de menor tamanho, envolvendo vazamentos e até hospitalização e morte de funcionários. Manutenção inadequada de válvulas de segurança e ausência de equipamento de proteção individual, como máscaras, foram falhas de operação constatadas nestas ocorrências anteriores. O desastre, segundo os laudos do processo, foi motivado por falta de medidas de segurança e treinamento dos trabalhadores, fazendo com que esses inadvertidamente permitissem a entrada de água no tanque, o que provocou sua explosão e a liberação do gás venenoso. A defesa alega que os trabalhadores agiram sem atenção às normas de segurança, causando assim a entrada de água no tanque.
O processo correu na justiça indiana por anos. Em 1989 a empresa Dow Chemical, então proprietária da Union Carbide, pagou uma indenização de 470 milhões de dólares, além de oferecer ajuda financeira para construção de clínicas para atendimento das vítimas. A reparação, segundo críticos, foi insuficiente dado o número de vítimas e o impacto ambiental. A justiça indiana prendeu altos funcionários da empresa e expediu ordens de prisão contra seu presidente, o americano Warren Anderson, que poucas horas depois de detido foi liberado por ordem de um ministro indiano. A história do acidente, do processo judicial e dos bastidores políticos, é mostrada no filme “A prayer for rain” (Reza por chuva), lançado em 2013. 
(Imagens: fotografias de Marc Ferrez)

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