Senso comum

sábado, 25 de julho de 2015
"Não acredite nos abraçadores de árvores que afirmam  que nossos ancestrais viveram em harmonia com a natureza. Muito antes da Revolução Industrial, o Homo sapiens já era o recordista, entre todos os organismos, em levar as espécies de plantas e animais mais importantes à extinção. Temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera dos anais da biologia."  -  Yuval Noah Harari  -  Uma breve história da humanidade
  
Senso comum, segundo Aristóteles é a capacidade geral de experimentar o mundo através dos diversos sentidos. Já para os escritores clássicos e filósofos latinos, esta expressão tem o significado de costume, gosto, modo comum de viver ou de falar (Abbagnano, 2007). Esta interpretação do termo "senso comum" é a que ainda utilizamos atualmente e como ocorreu durante quase toda a filosofia ocidental - pelo menos até o século XVIII, antes de Hume.  
O senso comum ou conhecimento vulgar, segundo a tradição filosófica, é a forma como interpretamos o mundo sem uma análise mais aprofundada; criteriosa. O senso comum se reflete, segundo esta tradição, na vida do dia a dia, nas opiniões, na maneira como culturas e povos encaram determinados temas. Sobre isto escreve o filósofo e educador John Dewey:
"Temos de reconhecer que a consciência ordinária do ser humano comum (...) é uma criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação. O ser humano vive em um mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos organizado em torno de desejos, cujos sucesso ou frustração constitui sua própria essência." (Dewey apud Fontana, 2007).

Seguindo esta linha de raciocínio de Dewey é interessante comentar a comparação que se poderia fazer entre a cultura popular ou folclore e a cultura (dita) clássica. Como exemplo podemos comparar a cerâmica de Vitalino Pereira dos Santos, "mestre Vitalino" (1909-1963), e a de Pablo Picasso (1881-1973). A de mestre Vitalino, considerada popular, retrata a vida diária do sertão do Nordeste e de suas pequenas cidades: o padre no confessionário, os retirantes, cenas de caça, casamento, músicos, enterros, entre outros temas. A arte de Picasso, mais intelectualizada e abstrata, mostra figuras estilizadas de animais, rostos, cenas de touradas. A arte de mestre Vitalino é em grande parte baseada nos costumes, nas opiniões e nos hábitos da cultura da qual é representante. Picasso desenvolveu estilo próprio, produto de longos estudos e prática, sem necessariamente se limitar ao universo cultural do qual procede.    
A expressão utilizada por Dewey "criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação" mostra o quanto o conceito de senso comum e seus sinônimos como "conhecimento vulgar", "consciência ordinária" e outros, estão eivados de platonismo; de um pensamento metafísico. A própria tradição filosófica desde os gregos procura colocar o senso comum como um conhecimento superficial, imperfeito e obtuso sobre o mundo. A mesma diferenciação que muitos fazem entre a cultura popular e a (assim chamada) alta cultura. A alegoria do Mito da Caverna, apresentado por Platão n´A República reflete muito bem essa dissociação. O senso comum é representado pela visão dos homens acorrentados no fundo da caverna, vendo sombras projetadas; a visão real pertence aqueles que conseguem sair da prisão e enxergar a luz do sol e assim contemplar o mundo com mais clareza.
Esta visão real do mundo, obtida à luz do sol - ou seja, à luz do conhecimento - foi sempre uma característica do discurso filosófico. Desde a Antiguidade até o período moderno, quase todos os filósofos e sua filosofias declaravam que o verdadeiro conhecimento, além do senso comum, só seria possível através da análise do mundo pelas lentes da filosofia. Esta tendência foi ainda foi mais acentuada, a partir do século III e IV, quando a doutrina cristã passou a ser incorporada ao neoplatonismo para formar a metafísica cristã.
A filosofia moderna, a partir de Descartes (1596-1650) e de suas elaborações intelectuais n´O Discurso sobre o método solidifica ainda mais o antagonismo entre o conhecimento comum, o senso comum e o conhecimento filosófico e científico. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), um dos precursores do método científico e da epistemologia, tem como objetivo tornar o pensamento mais claro e sistemático, eliminando ideias preconcebidas que classificou em "ídolos"; ídolo da tribo, ídolo da caverna, ídolo do mercado, ídolo do teatro. O filósofo e fundador dos modernos estudos de história, Giambattista Vico (1668-1744) escreve sobre o senso comum que:
O senso comum é o juízo sem reflexão, comumente sentido por toda uma ordem, todo um povo, toda uma nação, ou por todo o gênero humano. (Vico apud Cizotti, 2013).
Esta divisão entre o senso comum e o assim chamado verdadeiro conhecimento estende-se por toda a filosofia ocidental até praticamente os tempos atuais. Martin Heidegger (1889-1976) se refere à situação de inautenticidade do ser humano, quando este apoia suas opiniões e ideias naquilo que a massa anônima fala e pensa - Heidegger utiliza o termo homem, (Mann), com o artigo neutro "das" para realçar a falta de um sujeito definido. A opinião do "das Mann" é o senso comum; que não chega às raízes do pensamento e da verdadeira situação do homem, segundo o pensador alemão.
Na história da filosofia eram exceções as escolas filosóficas que valorizavam o senso comum. Entre estas correntes de pensamento estavam os: a) pensadores da linha empirista inglesa, já que o empirismo enfatiza o papel da experiência sensorial na formação de ideias; e b) os pensadores materialistas, que se antepunham a toda a visão idealista (metafísica). Dentre estes podemos destacar Karl Marx, que em sua em sua obra Teses sobre Feuerbach escreve em sua Segunda Tese:
”A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica." (Marx, 1982)
A filosofia sempre defendeu a dicotomia entre o senso comum e o verdadeiro pensamento (que para seus cultores era evidentemente a filosofia), porque se considerou a detentora da verdade, das opiniões e visões corretas sobre a realidade, sobre o mundo. No entanto, a partir da crise da metafísica iniciada por Hume e Kant, aprofundada por Nietzsche e definitivamente estabelecida pela filosofia pós-moderna, fica cada vez mais difícil falar de um "discurso verdadeiro" sobre a realidade, em contraposição a outros discursos "sem reflexão" como havia escrito Vico. O próprio discurso filosófico, segundo o pensador americano Richard Rorty (1931-2007), é um entre vários outros discursos e não tem a vantagem ou exclusividade da verdade - coisa que segundo Rorty não existe. A filosofia seria assim apenas um discurso que se utiliza de ferramentas específicas, não necessárias no dia a dia do senso comum, e tratando de temas específicos à sua área - sem que isto signifique que seja mais verdadeiro que outros.
A ciência do passado também dispunha de um discurso que estabelecia uma nítida divisão entre o senso comum do cidadão e os métodos de pesquisa cientista. O que, no entanto, efetivamente acontecia - segundo algumas interpretações - é que o homem da rua não persegue um objetivo específico em seu contato com o mundo, quando emite suas opiniões e vive seus costumes. Por outro lado, o pesquisador faz sua abordagem com métodos e objetivos predefinidos e coletando fatos vai fortalecendo sua hipótese científica, até que possa fundamentar sua teoria.
A questão entre o senso comum e o conhecimento filosófico ou científico pode ser considerada um falso dilema. Em última instância a origem do pensamento elaborado - seja a filosofia ou a ciência - está no próprio senso comum, criador dos costumes e das opiniões, mas também dos mitos, das religiões, da tecnologia e da moral. É a partir do contato com o mundo; da prática do dia a dia na caça, na coleta, na agricultura ou no pastoreio - como avaliam os empiristas e materialistas - que os humanos começaram a desenvolver sua cultura.
Então, através da interação entre ideias existentes e a realidade concreta desenvolveu-se cada vez mais o pensamento abstrato. Tudo, no entanto pela interação entre os organismos e o meio ambiente - como já vem acontecendo há 3,8 bilhões de anos.
Referências:
Abbagnano, Nicola. Dicionário de filosofia - verbete senso comum. São Paulo. Editora Martins Fontes: 2007, 1210 p.
A filosofia do senso comum. Disponível em <http://revistavilanova.com/a-filosofia-do-senso-comum/>. Acesso em 10/11/2013.
A filosofia da ciência de Rubem Alves. Disponível em: <http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/05/01afilosofiadacienciaderubemalves.pdf> Acesso em 8/11/2013.
Arte popular no Brasil: Mestre Vitalino. Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-sera-inaugurado-com-uma.html>. Acesso em 11/11/2013
Empirismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Empirismo>. Acesso em 11/11/2013
Teses sobre Feuerbach. Disponível em: <http://www.marxists.org/portugues/marx/1845/tesfeuer.htm>. Acesso em 11/11/2013.
(Imagens: xilogravuras de Ernst-Ludwig Kirchner)

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