Heráclito e Parmênides

terça-feira, 28 de julho de 2015
"É preciso, contudo, avançar ainda mais na análise dos efeitos contrastantes - indissoluvelmente positivos e negativos - do incessante projeto de inovação: pois este não é apenas desestabilizador no plano econômico e social para toda uma parte da população, mas também possui, num plano filosófico e moral, uma particularidade temível; a saber, ele é, por natureza, desprovido de sentido."  Luc Ferry  -  A inovação destruidora

A oposição entre o pensamento de Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia é clássico na história da filosofia e marcou também o desenvolvimento da ciência. A mutação heraclitiana e a permanência parmenidiana, são paradigmas que influenciaram todo o pensamento ocidental e cuja solução muitos pensadores e intelectuais encontraram no pensamento oriental.
Quanto a questão da mutabilidade e imutabilidade do ser, básica na filosofia ocidental, a posição de Heráclito era que o ser está permanentemente em mutação; o ser é e logo depois já não é mais. É assim que ocorre na natureza: as estações, os ciclos de vida dos animais – tudo está em constante transformação. Processos físico-químicos e biológicos se sucedem e toda vida se transforma. Darwin já afirmava que não existem dois indivíduos de uma mesma espécie exatamente iguais, fato que no século XX foi confirmado pela genética. O acúmulo de diferenças vai propiciando o aparecimento de indivíduos cada vez mais diferentes de seu ancestral original. Assim a mutabilidade proporciona a transmutação (evolução) das espécies.  Esta constante mudança se aplica a toda a natureza; desde as partículas subatômicas, ao homem e deste às galáxias.
A principal idéia do pensamento de Heráclito está expresso no seguinte texto escrito pelo filósofo Plotino: “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se”. Como tudo no universo heraclitiano está sempre em mutação, o filósofo alemão Hegel mais tarde argumentou que a essência deste processo é o tempo.  
Parmênides, por outro lado, afirma a imutabilidade; o Ser é e não-ser não pode não ser. O argumento principal do pensador é que não é possível pensar o não-ser, porque se o pensarmos, ele é. Daí argumenta que o pensar e o ser são o mesmo. Com estes argumentos, Parmênides conclui que admitindo que seja possível existir o não-ser, este seria a negação do ser, sua mudança, o que é impossível. Portanto, o ser é eterno e imutável. O mundo das aparências, onde ocorrem as mudanças, é somente uma concessão que Parmênides faz. Em seu pensamento não existe o mundo das mudanças, do não-ser. Parmênides abstrai seu pensamento daquele nível que nós chamamos realidade e coloca o Ser em uma outra esfera, classificando-o como uno, eterno e imutável. Parmênides foi o precursor da lógica, já que de suas idéias deduziram-se raciocínios como o princípio de identidade (o Ser é, cujo equivalente é A=A) e o princípio de não-contradição (o Ser é e não pode não ser, cujo equivalente é A=A e não pode ser A diferente de A).
(Imagens: gravuras de Frans Masereel)

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