O impacto da expansão urbana

quinta-feira, 12 de abril de 2012
"Todas as grandes obras-primas da literatura têm um estória linear, sem nada de extraordinário. Crime e castigo é a história de um estudante que assassina uma velha para roubar. Dom Quixote nem enredo tem: é um louco de meia-idade que sai pelo mundo procurando briga à toa. Madame Bovary é a mulher de um médico provinciano que arranja um amante. E daí?"  -  Carlos Heitor Cony  -  As obras primas que poucos leram (organizado por Heloisa Seixas)

A crescente expansão urbana se tornará um problema cada vez maior na Terra. Esta a conclusão principal a que chegou um grupo de cientistas recentemente reunidos em Londres, que estudou os diversos aspectos do crescimento desordenado das metrópoles em todo o mundo. Fatores econômicos, sociais e ambientais não escaparam à análise dos especialistas, que pretendem divulgar o resultado de seu trabalho durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece em junho deste ano no Rio de Janeiro.
Uma das causas do crescimento dos centros urbanos é a constante migração de populações do campo para a cidade. Este processo, que tem suas origens na Antiguidade, aumentando e diminuindo durante toda a história humana – muitas vezes afetada por carestias, guerras e epidemias – mostrou tendências de crescimento ao longo do século XX e início do XXI. Ásia, América Latina e África, foram os continentes nos quais estes movimentos migratórios da região rural para a urbana mais se acentuaram. Somente na China, ao longo dos últimos 30 anos, cerca de 250 milhões de pessoas se mudaram de suas fazendas para alojamentos nas cidades, à procura de melhores salários. O processo de industrialização sempre foi um fator de atração de mão-de-obra do campo, desde o início da industrialização na Europa do século XIX, passando pelo Brasil das décadas de 50, 60, 70 e 80 do século XX, até chegar ao êxodo rural ocasionado pela pujante industrialização chinesa.
Outro fator causador do rápido crescimento das cidades é o próprio aumento da população mundial, que dos atuais sete bilhões deve alcançar os nove bilhões até 2050, numa média de um milhão de nascimentos a cada semana no mundo, durante os próximos 38 anos. Parte desta população já está e outra irá se fixar nos grandes centros urbanos, onde a disponibilidade de trabalho, saúde, educação, cultura e lazer são bem maiores do que na província. Foi desta maneira que em um século o número de cidades com mais de um milhão de habitantes cresceu de dez para as atuais 450; dentre as quais megalópoles como São Paulo, que em 1912 não havia ainda chegado a um milhão de habitantes.
Um aspecto que os cientistas analisam é o impacto ambiental destes imensos formigueiros humanos. Sabe-se já que mais de 70% das emissões atuais de CO² são geradas nos centros urbanos. São Paulo, por exemplo, tem uma frota de mais de 7,2 milhões de veículos, 16 mil ônibus e quase um milhão de motocicletas. A oferta de transporte público não poluente – trens elétricos de superfície, metrôs e ônibus elétricos – é reduzida e os investimentos não acompanham o crescimento da demanda. Outro fator de poluição é o ainda incipiente sistema de gestão de resíduos e o tratamento somente parcial de efluentes domésticos.
É consenso entre os cientistas que não será mais possível manter o crescimento das cidades no ritmo atual. Administrações municipais terão que encontrar maneiras de melhorar o planejamento urbano: na urbanização e no zoneamento; com a oferta de transporte público eficiente e não-poluente; criando mais áreas verdes destinadas ao lazer; reduzindo o tamanho das casas; introduzindo leis que penalizem o excesso de uso da água e energia; e dificultando o uso do transporte individual, incentivando até o uso da bicicleta.    
(Imagens: fotografias de Dora Maar)

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