A influência da natureza

sábado, 19 de setembro de 2015
"Suposto que o pensar dos pensadores se diferencia do conhecimento das 'ciências' e de toda espécie de conhecimento prático, segundo todas as perspectivas, então, a relação do pensar com o pensado é essencialmente diferente da relação do pensar 'técnico-prático' e 'moral-prático' usual com o que este pensa."  Martin Heidegger, Parmênides

Todo ser vivo existe em constante interação com seu ambiente. O elefante, o homem, as bactérias e o vírus; todos têm seu habitat para sobreviver. Ao mesmo tempo em que está imerso no meio em que vive, o ser vivo também é uma unidade independente do resto da natureza. Fechado em si mesmo, cada indivíduo precisa gerar energia para manter-se vivo, através da incorporação de alimentos. Perdida a capacidade de subsistir e manter sua estrutura, o ser vivo se desfaz e volta incorporar-se ao ambiente.
A influência do meio ambiente sobre o indivíduo é tão grande que quase não é mais possível estudar uma espécie abstraída de seu entorno. Assim cada ser vivo pode ser visto como um nó de uma vastíssima teia de relações, onde cada parte influencia a outra. Esta ideia é relativamente recente, foi criada na teoria dos sistemas, disciplina que estuda de modo interdisciplinar a organização e interação de fenômenos, incluindo seres vivos. Com o desenvolvimento da ecologia, da biologia molecular e de outras ciências ligadas ao estudo do meio ambiente, este conceito da interação entre ambiente e espécie tornou-se mais importante.
Por esse motivo são tão complexos os Estudos de Impacto Ambiental e os Relatórios de Impacto ao Meio Ambiente (EIA/RIMA), necessários para avaliar os efeitos de um projeto no local onde será instalado. No entanto, mesmo contando com uma infinidade de conhecimentos e equipamentos científicos, além de pesquisas feitas in loco, ainda não é possível estabelecer definitivamente todos os impactos de uma atividade. Efeitos microscópicos a longo prazo ainda são desconhecidos em muitos casos, como por exemplo o uso de sementes geneticamente modificadas e seu efeito sobre a flora do entorno.
Há muitos aspectos ainda desconhecidos da natureza, que têm grande influência sobre os seres vivos. Nos últimos anos a ciência descobriu que além das bactérias, os vírus também atuam fortemente sobre a vida do planeta. Só para se ter uma ideia, em um litro de água do mar vivem cerca de 10 bilhões de bactérias, acompanhadas de 100 bilhões de vírus; todos no mesmo volume.
No passado, os cientistas admitiam que nosso genoma (o conjunto de nossos genes) era basicamente determinante para nosso desenvolvimento. Atualmente, no entanto, descobriram que existem três aspectos adicionais, de grande impacto na maneira como nossos genes se comportam e nossos corpos (e de todas as espécies vivas) se desenvolvem e funcionam: o epigenoma (as substâncias que envolvem os genes); o microbioma (trilhões de bactérias que habitam nossos corpos  células); e o viroma (trilhões de vírus que habitam essas mesmas bactérias, nossas células e todas as partes do nosso corpo).   
O viroma ainda é pouco conhecido. Os biólogos Juan Enriquez e Steve Gullans em seu livro Evolving Ourselves: How Unnatural Selection and Nonrandom Mutation are Changing Life on Earth (Desenvolvendo-nos: como a seleção não natural e a mutação não aleatória está mudando a vida na Terra), escrevem que "os vírus carregam, trocam e modificam os genes entre as células ou de uma espécie para outra. Eles dirigem a evolução em todas as escalas, nas bactérias, nas plantas, nos animais e nos humanos." Os estudos sobre o papel dos vírus na evolução da vida ainda estão no começo mas mostram, novamente, que a influência da natureza sobre nós é muito mais abrangente do que imaginamos.
(Imagens: pinturas de Heinz Kistler)  

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