Verde do extremo sul de São Paulo corre perigo

sábado, 26 de setembro de 2015
"Existem coisas que só a inteligência é capaz de procurar, mas que, por ela mesma, não encontrará jamais. Essas coisas, só o instinto as encontraria, ele porém não as buscará jamais."  -  Henry-Louis Bergson  -  A evolução criadora 

O extremo sul da cidade de São Paulo ainda dispõe de áreas verdes, constituídas por remanescentes da mata atlântica, repletos de nascentes e corpos d'água. Formada pelos atuais distritos de Parelheiros e Marsilac, a área viveu em relativo isolamento ao longo da história da cidade. Esta situação só foi interrompida em 1829, com a vinda de colonos alemães que por lá se estabeleceram. O núcleo deste povoamento é o atual bairro de Colônia. Sempre foi grande o número de chácaras e sítios na região, que com sua produção de hortaliças e produtos de granja abasteciam as cidades de Santo Amaro e de São Paulo - Santo Amaro foi município independente até 1935.
A partir dos anos 1970 a cidade de São Paulo começou a crescer fortemente em direção ao leste e ao sul, regiões mais afastadas do centro e onde havia mais terra desocupada disponível. Na região de Santo Amaro e Capela de Socorro formaram-se extensos bairros e tiveram início as ocupações das margens das represas Guarapiranga e Billings. Ao longo dos anos 1980 e 1990, com a crise habitacional por que passava o país, estas ocupações clandestinas só aumentaram. O impacto ambiental deste processo era diverso: derrubada da vegetação original, geralmente formada por mata atlântica; formação de lixões clandestinos, já que o precário arruamento impedia a entrada de caminhões de coleta; e poluição das águas dos reservatórios, com a descarga de efluentes domésticos sem qualquer tratamento. O poder público pouco fez para barrar ou organizar a ocupação destas áreas de mananciais. As represas Guarapiranga e Billings são o maiores reservatórios da região da grande São Paulo e poderiam ser melhor aproveitados - principalmente a represa Billings - se suas água não estivessem contaminadas por tão grande volume de efluentes e resíduos.    
Nos últimos quinze anos o processo de ocupação irregular começou a avançar ainda mais para o extremo sul da cidade de São Paulo, alcançando Parelheiros e Marsilac. Áreas que até há alguns anos eram propriedades agrícolas do cinturão verde da cidade, foram transformadas em loteamentos. As ocupações clandestinas também avançam para dentro do perímetro da APA (área de proteção ambiental) Bororé-Colônia, área de mananciais localizada entre as represas Billings e Guarapiranga. O conhecido desmatamento "formiga" - invasões, adensamento populacional e pequenos desmatamentos - são comuns na região. Segundo reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, a situação é do conhecimento da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, mas a fiscalização da região é quase inexistente.
A região do extremo sul de São Paulo, que engloba as APAs  Bororé-Colônia e Capivari-Monos ainda possui reservas florestais de mata atlântica e por isso ainda tem grande quantidade de nascentes e córregos que contribuem para alimentar as represas Guarapiranga e Billings. A floresta que cobre a região tem influência na temperatura e no grau de umidade das regiões circunvizinhas.
Em tempos em que as cidades em todo o mundo procuram valorizar e ampliar suas áreas verdes, a prefeitura da cidade de São Paulo tem obrigação de zelar para que a cobertura vegetal do extremo sul não seja destruída. Sua supressão, além de destruir um bioma único, poderia causar impactos climáticos não só em São Paulo, mas em municípios limítrofes, como São Bernardo, Diadema, São Caetano e Santo André.
(Imagens: aquarelas de Ewald Christian Tergreve)

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