“É um princípio de continuidade no
tempo. Sem entrar em discussão — uma discussão ociosa — se sou ou não sou o
mesmo que era há vinte anos, é indiscutível, parece-me, o fato de que aquele
que sou hoje provém, por uma série contínua de estados de consciência, daquele
que eu era em meu corpo há vinte anos. A memória é a base da personalidade
individual, assim como a tradição é a base da personalidade coletiva de um povo.
Mais de uma vez foi dito que todo
homem infeliz prefere ser quem ele é, mesmo com suas desgraças, a ser outro sem
elas. E é que os homens infelizes, quando mantêm a sanidade em sua desgraça, ou
seja, quando se esforçam para perseverar em seu ser, preferem a desgraça à não
existência. Posso dizer sobre mim que, quando era jovem, e mesmo quando era
criança, as pinturas patéticas do inferno não me comoviam, pois desde então
nada me parecia tão horrível quanto o próprio nada. Era uma fome furiosa de ser,
um apetite de divindade, como nosso asceta disse.”
“E toda essa batalha trágica do homem
para se salvar, esse desejo imortal de imortalidade que fez o homem Kant dar
aquele salto imortal do qual eu falava, tudo isso não passa de uma batalha pela
consciência. Se a consciência não é, como disse algum pensador desumano, nada
mais do que um relâmpago entre duas eternidades de trevas, então não há nada
mais execrável do que a existência.”
“Fiquemos agora com essa suspeita
veemente de que o desejo de não morrer, a fome de imortalidade pessoal, o
esforço pelo qual tendemos a persistir indefinidamente
em nosso próprio ser e que é, segundo o trágico judeu (o filósofo Espinosa),
nossa própria essência, é a base afetiva de todo conhecimento e o ponto de
partida íntimo e pessoal de toda filosofia humana, forjada por um homem e para
os homens. E veremos como a solução desse problema íntimo afetivo, solução que
pode ser a renúncia desesperada de resolvê-lo, é a que colore todo o resto da
filosofia. Até mesmo sob o chamado problema do conhecimento não há senão esse
afeto humano, assim como sob a busca da causa não há senão a busca do para quê,
da finalidade. Todo o resto é enganar-se ou querer enganar os outros. E querer
enganar os outros para enganar a si mesmo. E esse ponto de partida pessoal e
afetivo de toda filosofia e de toda religião é o sentimento trágico da vida.”
Miguel de Unamuno (1863-1936), filósofo, ensaísta,
escritor e poeta espanhol em O Sentimento
Trágico da Vida