“Permanece inteira, com efeito, a objeção de Hume, que mostra que não se pode passar nunca do que é (um fato) ao que deve ser (uma valor absoluto, um imperativo). Querer fundar uma moral na natureza é, inevitavelmente, cair no que Moore chama de ‘sofisma naturalista’ (naturalistic fallacy). Querer fundar uma moral nas ciências é cair num sofisma cientificista. Por que a natureza seria boa? Por que a verdade seria boa? Equivaleria transformá-las em divindades, e é o que o materialismo rejeita. A natureza é submetida unicamente a causas (unicamente a ela mesma): ela não reconhece nem valores nem deveres. Uma ciência conhece unicamente fatos: ela sempre fala no indicativo, como dizia o matemático Henri Poincaré, nunca no imperativo, e é o que a impede de fazer as vezes de moral.”
“A
cultura funciona nisso como uma ‘antinatureza’, que a natureza produz (pela evolução) e que a
transforma (pela civilização). Isso me esclarece sobre meu debate com Luc. Ele
fala do homem como de um ser ‘fora da natureza’, ou mesmo sobrenatural. Eu
falaria dele, antes, como um ser natural capaz não apenas de evoluir, como todo
ser vivo, mas de transformar a si mesmo
transformando tanto seu meio como seu pensamento. É o que se chama trabalho. É
o que se chama história. É o que se chama civilização.”
André Comte-Sponville (1952-) filósofo francês e Luc Ferry (1951-) intelectual e escritor defensor do humanismo secular em A Sabedoria dos Modernos


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