Outras leituras

segunda-feira, 2 de março de 2026


 

“A mineração exigiu intercâmbio com as Capitanias do norte e do sul, no primeiro momento de integração nacional. A área devia importar gêneros alimentícios, artigos elaborados. O ouro provocou a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Criou uma consciência nacional, traduzida em rebeliões contra o poder português ou em um movimento artístico fecundo. A riqueza pouco ficava em Minas ou no Brasil; nem mesmo em Portugal, pois ouro e diamante só passavam por Lisboa, indo para os Países Baixos — aí se fazia a lapidação dos diamantes, ou para a Inglaterra, em pagamento das inúmeras e dispensáveis importações. Como antes com as especiarias e com o açúcar, o português perdia outra oportunidade. Em obras suntuárias e não reprodutivas, na desorganização de um governo pouco lúcido para o econômico, esvaía-se a riqueza. 

Lembre-se, a propósito, o célebre Tratado de Methuen, em 1703 — quando começa a aparecer o Ouro —, entre Portugal e Inglaterra. Em termos simples, Portugal compromete-se 'para sempre' a importar tecidos ingleses, enquanto a Inglaterra compromete-se a importar vinhos portugueses. É outro momento marcante das relações entre os dois países, vindo de longe e marcado pela desigualdade de tratamento, com a submissão portuguesa. O assunto já foi muito estudado, aparecendo mesmo em clássicos como Montesquieu e Adam Smith.” 

“É geral a impressão de desenvolvimento. Multiplicam-se as iniciativas, não mais, como na regência de D. João, sob o signo oficial, mas pelo investimento privado. As chamadas fábricas nacionais encontram-se no Rio e nas províncias, para tecidos, chapéus, sapatos, couros, vidros, rapé, cerveja, sabão. A contar de 1860, realizam-se exposições industriais — fato significativo, apesar da modéstia do que se exibe e sua falta de repercussão. O país parecia maduro, consolidado — os indivíduos agiam, respirava-se confiança. Constroem-se ferrovias e instala-se o telégrafo, em busca da integração nacional. Aparece o que o ministro da Agricultura Manuel Buarque de Macedo, em 1880, chama ‘a nobre impaciência do amor do progresso’. Em parte dos dirigentes nacionais desenvolve-se o gosto pelas inovações, com o abandono da rotina, em nome de ideias novas, realizações materiais condutoras ao enriquecimento. É a modernização para um Brasil rico, livre, realizador, como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos. 

É a ‘era Mauá’. Irineu Evangelista de Souza — Barão e depois Visconde de Mauá — domina a década com trabalhos de industrial ousado, banqueiro, construtor de ferrovias, empresário de navegação, introdutor de inovações tecnológicas, político, diplomata. Sua ação estende-se por todo o Brasil e mesmo áreas vizinhas, como o Uruguai, sem falar em participações bancárias, como as de Montevidéu, Buenos Aires, Nova Iorque, Paris, Londres, Manchester. É o melhor símbolo da euforia de então, quando o país parece despertar do torpor e se lança à aventura econômica e financeira, como se fosse a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos. Mauá tem os traços do grande empresário, aquele que se joga no negócio com crença, entusiasmo, domínio da situação, vencedor. É raro no Brasil, de ontem ou de hoje, essa figura que marca com traço forte a história do capitalismo, essa psicologia do pioneiro que é criação de um sistema.”

 

Francisco Iglesias (1923-1999), economista e historiador brasileiro em A Industrialização Brasileira (1985)

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