“Bactérias
são criaturas inteligentíssimas, não há como dizer de outro modo, ainda que sua
inteligência não seja guiada por uma mente dotada de sentimentos, intenções e
ponto de vista consciente. Elas são capazes de sentir as condições de seu
ambiente e reagem de maneiras que são vantajosas para a continuidade da vida.
Entre essas reações, incluem-se os comportamentos sociais elaborados. Elas
podem comunicar-se entre si – não por palavras, é verdade, mas por meio das
moléculas que elas usam para sinalizar. Os cálculos que executam permitem-lhes
avaliar sua situação e, conforme for, viver independentemente ou se juntarem caso a necessidade assim o exigir. Não existe sistema nervoso no interior destes organismos unicelulares, tampouco uma mente análoga à que possuímos. No
entanto, elas têm variedades de percepção, memória, comunicação e governança
social. As operações funcionais que sustentam toda essa ‘inteligência sem
cérebro ou mente’ dependem de redes químicas e elétricas do tipo que os sistemas
nervosos por fim vieram a possuir, desenvolver e explorar mais tarde na
evolução. Em outras palavras, mais tarde, muito mais tarde na evolução,
neurônios e circuitos neuronais passaram a fazer bom uso de invenções mais
antigas que dependiam de relações moleculares e de componentes do corpo celular
conhecidos como citoesqueleto – literalmente, o esqueleto dentro da célula – e
membrana.”
Antonio Damasio (1944-), médico, neurologista e
neurocientista português em A Estranha
Ordem das Coisas


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