Leituras diárias

quinta-feira, 26 de março de 2026

 

“Bactérias são criaturas inteligentíssimas, não há como dizer de outro modo, ainda que sua inteligência não seja guiada por uma mente dotada de sentimentos, intenções e ponto de vista consciente. Elas são capazes de sentir as condições de seu ambiente e reagem de maneiras que são vantajosas para a continuidade da vida. Entre essas reações, incluem-se os comportamentos sociais elaborados. Elas podem comunicar-se entre si – não por palavras, é verdade, mas por meio das moléculas que elas usam para sinalizar. Os cálculos que executam permitem-lhes avaliar sua situação e, conforme for, viver independentemente ou se juntarem caso a necessidade assim o exigir. Não existe sistema nervoso no interior destes organismos unicelulares, tampouco uma mente análoga à que possuímos. No entanto, elas têm variedades de percepção, memória, comunicação e governança social. As operações funcionais que sustentam toda essa ‘inteligência sem cérebro ou mente’ dependem de redes químicas e elétricas do tipo que os sistemas nervosos por fim vieram a possuir, desenvolver e explorar mais tarde na evolução. Em outras palavras, mais tarde, muito mais tarde na evolução, neurônios e circuitos neuronais passaram a fazer bom uso de invenções mais antigas que dependiam de relações moleculares e de componentes do corpo celular conhecidos como citoesqueleto – literalmente, o esqueleto dentro da célula – e membrana.”

 

Antonio Damasio (1944-), médico, neurologista e neurocientista português em A Estranha Ordem das Coisas

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