Outras Leituras

terça-feira, 31 de março de 2026

 

“Mesmo depois da morte, alguma coisa parecia continuar compelindo Montaigne de volta ao fluxo da vida, em vez deixá-lo congelado numa lembrança perfeita. E seu verdadeiro legado nada tem a ver, em absoluto, com esse túmulo. É na posteridade turbulenta de Os Ensaios que ele pode ser encontrado, seu segundo ‘eu’ em interminável evolução. Eles continuaram vivos, e, para Montaigne, era sempre a vida que importava. Virginia Woolf gostava particularmente de citar este pensamento de seu último ensaio: era o mais próximo que Montaigne havia chegado da melhor ou definitiva resposta à pergunta sobre como viver. 

A vida deve ser um objetivo em si mesma, uma finalidade em si mesma. Ou bem não se trata de uma resposta em absoluto, ou então é a única resposta possível. Ela tem a mesma qualidade que a resposta dada pelo mestre zen que, diante da pergunta ‘Que é o esclarecimento?’, deu com um bastão na cabeça daquele que perguntava. O esclarecimento é algo que aprendemos no próprio corpo, assumindo a forma de coisas que nos acontecem. Por isso é que os estoicos, os epicuristas e os céticos ensinavam truques, e não preceitos. Os filósofos podem oferecer apenas essa pancada na cabeça: uma técnica útil, uma aventura do pensamento, ou uma experiência — no caso de Montaigne, a experiência da leitura de Os Ensaios. O tema por ele ensinado é simplesmente ele próprio, um exemplo comum de um ser vivo. Embora Os Ensaios apresente uma diferente faceta para cada um, tudo, nele, converge nessa mesma figura: Montaigne. Por isso é que os leitores voltam a ele como a poucos outros do seu século, e mesmo a raros escritores de qualquer época. Os Ensaios é o seu ensaio . Testa e dá amostra de uma mente que é um ‘eu’ em si mesma, como todas as mentes o são. 

Haverá talvez quem questione se ainda existe necessidade de um ensaísta como Montaigne. No mundo desenvolvido do século XXI, as pessoas já são excessivamente individualistas, além de estarem ligadas umas às outras num grau muito além dos sonhos mais delirantes de um cultivador de vinhedos do século XVI. Sua preocupação com o ‘eu’ em todas as coisas pode ficar parecendo um típico caso de pregação para convertidos, ou mesmo de fornecimento de drogas a viciados. Mas Montaigne oferece mais que uma mera indução à autocomplacência. O século XXI teria tudo a ganhar com uma concepção montaigniana da vida, e, nos momentos mais conturbados por que passou até agora, verificou-se quão terrivelmente precisaria de uma política montaigniana. Poderia valer-se da sua moderação, do seu amor à sociabilidade e à cortesia, de sua ausência de julgamento e da sutil compreensão por ele demonstrada dos mecanismos psicológicos envolvidos no confronto e no conflito. Precisa também da sua convicção de que, no mundo real, nenhuma visão do paraíso, nenhum Apocalipse imaginário, nenhuma fantasia perfeccionista pode ser mais importante que a mais minúscula das individualidades.” (Bakewell, págs. 350-360).

 

Sarah Bakewell (1963-), filósofa, escritora e professora britânica em Como viver: ou Uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta 

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