Leituras diárias

domingo, 18 de janeiro de 2026


 

“O rádio passava a ser, na década de 1930, portanto, o grande porta-voz das mudanças apresentadas pela cidade, mesmo considerando a questão do tempo. A velocidade do tempo mudava de acordo com as necessidades do trabalho. Tempo movido pela hora da entrada e da saída do trabalho, tempo de mudanças constantes entre construções e demolições difíceis de acompanhar, o tempo da programação radiofônica. Também o tempo da transmissão publicitária, e a necessidade de, nesse determinado período, fazer o ouvinte crer que precisaria comprar a mercadoria anunciada. Assim, o rádio se tornava cada dia mais integrado ao cotidiano de parte da população e adaptado ao ritmo e ao tempo industrializado. Também jogos de futebol e lutas, além de notícias e da programação cotidiana, faziam com que o rádio oferecesse lazer à população. O lazer podia estar circunscrito ao âmbito do rádio ou então nas reuniões organizadas em alguns lugares com a finalidade de apreciar a programação transmitida. Importantes centros de concentração de pessoas para escutar rádio eram os salões de ‘vendas’.”

“Assim, o lazer estava garantido, tendo como ponto principal a radiodifusão, mesmo àqueles que, não obstante a maior facilidade em se adquirir um rádio na década de 1930, ainda não tinham acesso ao aparelho. Afinal, as reuniões nas vendas traziam a oportunidade da conversa informal, da troca de informações cotidianas, das discussões em torno das notícias, da torcida em conjunto ou adversária nas transmissões esportivas, entre outras possibilidades.”

“A sociabilidade era de extrema necessidade para a sua produção agrícola, de forma que o território contava com uma vizinhança disposta a participar do auxílio mutuo, quando necessário. As possibilidades que o meio rural caipira fornecia às produções de subsistência ditavam a dieta caipira,  ‘[...] ligada à agricultura itinerante, à coleta, à caça e à pesca [...]’. Assim, é possível visualizar uma situação em que o agrupamento e seu consequente auxílio mútuo nas situações de trabalho para subsistência das famílias caipiras estava diretamente relacionada, ou mesmo se confundia com o meio em que viviam. Os bairros caipiras contavam com a criação de um laço de sobrevivência, que tornava a sociabilidade do bairro uma necessidade cotidiana, na realização dos trabalhos de subsistência. Assim, ficava clara a sua diferença em relação a uma economia de mercado, marcada pela troca por intermédio do dinheiro.”

“Os códigos de convivência nos bairros caipiras formavam uma rede de auxílio, conhecida como mutirão, no qual todos se ajudavam em caso de necessidades como na derrubada da mata a fim de criar um roçado, na plantação, na colheita, na limpeza dos gêneros cultivados. Também era um modo de auxilio na construção ou manutenção das moradias e estradas. Essas características de sociabilidades na manutenção da sobrevivência permitiam que fosse possível uma produção agrícola caipira com gêneros de subsistência, bem como a produção do arroz e do feijão. Esses códigos de organização da vida nos bairros caipiras ditavam regras de agradecimento, sendo que aquele que tivesse recebido auxílio com o mutirão devia oferecer aos trabalhadores a alimentação. Ao fim dos trabalhos também era de bom grado a oferta de uma festa, regada a música e pinga. Percebe-se que a sociabilidade de um território, no caso o bairro caipira, perpassava toda uma gama de construção da cultura caipira, que, na realidade do seu espaço geográfico, construía uma gama de relações culturais.”

“A situação econômica do caipira muitas vezes o obrigou a abandonar seu território, não considerando a terra como uma mercadoria, sendo ela o seu espaço de entrelaçamento entre socialização, trabalho e lazer. O meio em que vivia era por ele apossado, com a finalidade de suprir suas necessidades de sobrevivência. O avanço do latifúndio obrigava, muitas vezes, as famílias a abandonarem suas posses, sem os títulos de propriedades, se tornavam presas de grileiros. Considera-se essa situação como uma das causas da migração caipira para a cidade. No centro urbano, ele tinha que se adequar a novas situações que alteraram sua forma de vida o que levou a readequações em toda sua organização social. Entre elas, o contato com os vizinhos e o lazer praticado muitas vezes no próprio local de trabalho.”

“Na situação de migrante, o caipira estava impossibilitado de exercer no meio urbano a cultura com a qual estava acostumado no ambiente rural. Enquanto cultura, pensa-se aqui todo ato de organização de vida, bem como a economia, as relações entre pessoas, as festividades e suas características, as cantorias, a religiosidade, enfim, todos os aspectos inseridos na vida caipira. O espaço da cidade não oferecia possibilidades aos migrantes de exercerem integralmente todas essas características culturais, obrigando os migrantes a se adequar às novas condições de vida. Não quer dizer que abandonassem todo seu conhecimento anterior e recomeçassem a partir do nada, para constituir um novo modelo cultural.”

“Nessas oportunidades, a produção cultural de Monteiro Lobato e Cornélio Pires acerca do caipira também era responsável por estabelecer espaços diferenciados entre o rural e o urbano. Marcavam diferenças que acabavam por sedimentar a separação entre esses meios, ora adjetivando positivamente, ora negativamente ambos.”

 

Bruno Elton Ferreira, doutor em História e professor universitário em Sonoridades caipiras na cidade: A produção de Cornélio Pires (1929-1930)

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