“O rádio passava a ser, na década de 1930, portanto, o grande
porta-voz das mudanças apresentadas pela cidade, mesmo considerando a questão
do tempo. A velocidade do tempo mudava de acordo com as necessidades do
trabalho. Tempo movido pela hora da entrada e da saída do trabalho, tempo de
mudanças constantes entre construções e demolições difíceis de acompanhar, o
tempo da programação radiofônica. Também o tempo da transmissão publicitária, e
a necessidade de, nesse determinado período, fazer o ouvinte crer que
precisaria comprar a mercadoria anunciada. Assim, o rádio se tornava cada dia
mais integrado ao cotidiano de parte da população e adaptado ao ritmo e ao
tempo industrializado. Também jogos de futebol e lutas, além de notícias e da
programação cotidiana, faziam com que o rádio oferecesse lazer à população. O
lazer podia estar circunscrito ao âmbito do rádio ou então nas reuniões
organizadas em alguns lugares com a finalidade de apreciar a programação
transmitida. Importantes centros de concentração de pessoas para escutar rádio
eram os salões de ‘vendas’.”
“Assim, o lazer estava garantido, tendo como ponto principal a
radiodifusão, mesmo àqueles que, não obstante a maior facilidade em se adquirir
um rádio na década de 1930, ainda não tinham acesso ao aparelho. Afinal, as
reuniões nas vendas traziam a oportunidade da conversa informal, da troca de
informações cotidianas, das discussões em torno das notícias, da torcida em
conjunto ou adversária nas transmissões esportivas, entre outras possibilidades.”
“A sociabilidade era de extrema necessidade para a sua produção
agrícola, de forma que o território contava com uma vizinhança disposta a
participar do auxílio mutuo, quando necessário. As possibilidades que o meio
rural caipira fornecia às produções de subsistência ditavam a dieta caipira, ‘[...] ligada à agricultura itinerante, à
coleta, à caça e à pesca [...]’. Assim, é possível visualizar uma situação em
que o agrupamento e seu consequente auxílio mútuo nas situações de trabalho
para subsistência das famílias caipiras estava diretamente relacionada, ou
mesmo se confundia com o meio em que viviam. Os bairros caipiras contavam com a
criação de um laço de sobrevivência, que tornava a sociabilidade do bairro uma
necessidade cotidiana, na realização dos trabalhos de subsistência. Assim,
ficava clara a sua diferença em relação a uma economia de mercado, marcada pela
troca por intermédio do dinheiro.”
“Os códigos de convivência nos bairros caipiras formavam uma
rede de auxílio, conhecida como mutirão, no qual todos se ajudavam em caso de
necessidades como na derrubada da mata a fim de criar um roçado, na plantação,
na colheita, na limpeza dos gêneros cultivados. Também era um modo de auxilio
na construção ou manutenção das moradias e estradas. Essas características de
sociabilidades na manutenção da sobrevivência permitiam que fosse possível uma
produção agrícola caipira com gêneros de subsistência, bem como a produção do
arroz e do feijão. Esses códigos de organização da vida nos bairros caipiras
ditavam regras de agradecimento, sendo que aquele que tivesse recebido auxílio
com o mutirão devia oferecer aos trabalhadores a alimentação. Ao fim dos
trabalhos também era de bom grado a oferta de uma festa, regada a música e
pinga. Percebe-se que a sociabilidade de um território, no caso o bairro
caipira, perpassava toda uma gama de construção da cultura caipira, que, na
realidade do seu espaço geográfico, construía uma gama de relações culturais.”
“A situação econômica do caipira muitas vezes o obrigou a
abandonar seu território, não considerando a terra como uma mercadoria, sendo
ela o seu espaço de entrelaçamento entre socialização, trabalho e lazer. O meio
em que vivia era por ele apossado, com a finalidade de suprir suas necessidades
de sobrevivência. O avanço do latifúndio obrigava, muitas vezes, as famílias a
abandonarem suas posses, sem os títulos de propriedades, se tornavam presas de
grileiros. Considera-se essa situação como uma das causas da migração caipira
para a cidade. No centro urbano, ele tinha que se adequar a novas situações que
alteraram sua forma de vida o que levou a readequações em toda sua organização
social. Entre elas, o contato com os vizinhos e o lazer praticado muitas vezes
no próprio local de trabalho.”
“Na situação de migrante, o caipira estava impossibilitado de exercer
no meio urbano a cultura com a qual estava acostumado no ambiente rural.
Enquanto cultura, pensa-se aqui todo ato de organização de vida, bem como a
economia, as relações entre pessoas, as festividades e suas características, as
cantorias, a religiosidade, enfim, todos os aspectos inseridos na vida caipira.
O espaço da cidade não oferecia possibilidades aos migrantes de exercerem
integralmente todas essas características culturais, obrigando os migrantes a
se adequar às novas condições de vida. Não quer dizer que abandonassem todo seu
conhecimento anterior e recomeçassem a partir do nada, para constituir um novo
modelo cultural.”
“Nessas oportunidades, a produção cultural de Monteiro Lobato e
Cornélio Pires acerca do caipira também era responsável por estabelecer espaços
diferenciados entre o rural e o urbano. Marcavam diferenças que acabavam por
sedimentar a separação entre esses meios, ora adjetivando positivamente, ora
negativamente ambos.”
Bruno Elton Ferreira, doutor em História e professor universitário em Sonoridades caipiras na cidade: A produção de Cornélio Pires (1929-1930)


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