“Mas, é claro, Reagan e Thatcher não estiveram sozinhos, nem foram pioneiros exclusivos do neoliberalismo e da financeirização. Em meados da década de 1970, o milionário David Rockfeller criou a Comissão Trilateral. Ela reuniu duzentos membros selecionados entre as elites político-econômicas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Essa reunião tinha como objetivo propor uma carta de ações conjuntas diante dos impasses do capitalismo, basicamente a preocupação com a queda da taxa de lucro. É interessante notar o caráter reativo do documento produzido pela comissão. A ideia expressa no documento, significativamente denominado ‘A crise da democracia’, publicado em 1975, nada tinha de complexa. Dizia que o problema mundial estava no ‘excesso de democracia’. A democracia, para a comissão, precisava ter limites, de modo que uma elite seria melhor para o governo, e não um governo passível de ser pressionado por amplas bases populacionais. O que a Comissão visava era elaborar um argumento para que a sociedade se desfizesse dos compromissos da política que uniu Keynes com Ford.
Preparou-se aí a tese de que o problema da queda da taxa de lucro das empresas advinha, especialmente, das reivindicações sindicais. O regime do Estado de bem-estar social havia gerado um poder sindical que precisava ser afastado. Deixou-se de lado a ideia de que uma sociedade de consumo de massas, com salários capazes de manter esse consumo aquecido e, ao mesmo tempo, controlado, faria o capital e o trabalho andarem juntos, resultando em progresso. Esse regime foi para o espaço quando o próprio modo de produção fordista deu mostras de não mais poder acelerar o ciclo produção/consumo. Quando esse fato se agrupou às vicissitudes da estagflação dos anos 1970, tudo começou a se encaminhar para a confluência de um novo casamento. Ford e Keynes se tornaram um casal fora de moda. O novo par adveio de um casamento celebrado com clérigos presentes para a cerimônia: foi a união de Thatcher e Reagan, com a bênção de Friedrich Hayek (1899‑1992) e Milton Friedman (1912‑2006), que haviam adquirido respeitabilidade acadêmica recente graças ao Prêmio Nobel em Economia que receberam, respectivamente, em 1974 e 1976.” (Ghiraldelli, págs. 56 e 57).
Paulo Ghiraldelli (1957-), filósofo, escritor, professor e youtuber brasileiro em Capitalismo 4.0: Sociedades e Subjetividades


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