Leandro Konder

sábado, 25 de abril de 2026


 

“A gente não escolhe a família em que nasce, não dispõe do poder de negar a parentela e renegar os antepassados, as matrizes do nosso DNA. Na eleição dos artistas, filósofos e escritores que mais admiramos, entretanto, somos livres para explicitar nosso pertencimento a uma família intelectual, a uma família de tipo especial. Escrevendo sobre o Barão de Itararé, me senti meio sobrinho dele, por afinidade. Tive a impressão de que ele me dava uma pista para que eu entendesse melhor alguns pontos nos quais a esquerda podia ser diferente do que vinha sendo, podia ser melhor do que era. E um desses pontos era a excessiva "seriedade" com que ela se apresentava, o fato de se levar muito a sério. O humor cria a possibilidade de atenuar o inevitável sofrimento do necessário aprofundamento da crítica e da passagem da crítica à autocrítica. O humor, nas suas melhores expressões, sempre nos surpreende, por isso consegue, ao menos momentaneamente, sacudir a poeira das convicções enrijecidas.”

 

Leandro Konder (1936-2014), filósofo, professor e jornalista brasileiro em Memórias de Um Intelectual Comunista

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