“A gente não escolhe a família em que
nasce, não dispõe do poder de negar a parentela e renegar os antepassados, as
matrizes do nosso DNA. Na eleição dos artistas, filósofos e escritores que mais
admiramos, entretanto, somos livres para explicitar nosso pertencimento a uma
família intelectual, a uma família de tipo especial. Escrevendo sobre o Barão
de Itararé, me senti meio sobrinho dele, por afinidade. Tive a impressão de que
ele me dava uma pista para que eu entendesse melhor alguns pontos nos quais a
esquerda podia ser diferente do que vinha sendo, podia ser melhor do que era. E
um desses pontos era a excessiva "seriedade" com que ela se apresentava,
o fato de se levar muito a sério. O humor cria a possibilidade de atenuar o
inevitável sofrimento do necessário aprofundamento da crítica e da passagem da
crítica à autocrítica. O humor, nas suas melhores expressões, sempre nos
surpreende, por isso consegue, ao menos momentaneamente, sacudir a poeira das
convicções enrijecidas.”
Leandro
Konder
(1936-2014), filósofo, professor e jornalista brasileiro em Memórias de Um Intelectual Comunista


0 comments:
Postar um comentário