O devir e o ser

domingo, 30 de dezembro de 2012
"Nossas tentativas frenéticas - assim como o resto da vida - de sobreviver e prosperar são um modo especial, existente há quatro bilhões de anos, de o universo se organizar 'para' obedecer à segunda lei da termodinâmica."  -  Lynn Margulis & Dorion Sagan  -  O que é vida?

Quanto à questão da mutabilidade e imutabilidade do ser, básica na filosofia ocidental, a posição de Heráclito era que o ser está permanentemente em mutação; o ser é e logo depois já não é mais. É assim que ocorre na natureza: as estações, os ciclos de vida dos animais; tudo está em constante transformação. Processos físico-químicos e biológicos se sucedem e toda vida se transforma. Darwin já afirmava que não existem dois indivíduos de uma mesma espécie exatamente iguais, fato que no século XX foi confirmado pela genética. O acúmulo de diferenças vai propiciando o aparecimento de indivíduos, cada vez mais diferentes de seu ancestral original. Assim a mutabilidade proporciona a transmutação (evolução) das espécies. Esta constante mudança se aplica a toda a natureza; desde as partículas subatômicas, passando pelo homem e deste às galáxias.
A principal idéia do pensamento de Heráclito está expressa no seguinte texto que nos foi transmitido pelo filósofo Plotino (204-270): “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-se e afasta-se” (citado em Os Pré-Socráticos, 1999).
Como tudo no universo heraclitiano está sempre em mutação, Hegel argumenta que a essência deste processo é o tempo, o devir.
Parmênides, por outro lado, afirma que o Ser é e não pode não ser. O argumento principal do pensador é que não é possível pensar o não-ser, porque se o pensarmos, ele é. Daí argumenta que o pensar e o ser são o mesmo. Com estas idéias, Parmênides chega às seguintes conclusões: "Admitindo que seja possível existir o não-ser, este seria a negação do ser, sua mudança, o que é impossível. Portanto, o ser é eterno e imutável."
O mundo das aparências, onde ocorrem as mudanças, é somente uma concessão que Parmênides faz. Em seu pensamento não existe o mundo das mudanças, do não-ser. Parmênides abstrai seu pensamento daquele nível que nós chamamos realidade e coloca o Ser em outra esfera, classificando-o como uno eterno e imutável.
Parmênides foi o precursor da lógica, já que de suas idéias deduziram-se raciocínios como o princípio de identidade (o Ser é, cujo equivalente é A=A) e o princípio de não-contradição (o Ser é e não pode não ser, cujo equivalente é A=A e não pode ser A diferente de A)
O pensamente de Heráclito e Parmênides representará os dois opostos que influenciarão toda a filosofia ocidental.
Bibliografia:
CHAUÍ, Marilena, Convite à Filosofia, 13ª edição, 6ª impressão, São Paulo: Editora Ática, 2006
SOUZA, José Cavalcante, Os Pré-Socráticos, 4ª ed. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996
SCHÜLER, Donaldo, Heráclito e seu (dis)curso, 1ª ed. Porto Alegre: L&PM Editora, 2000
(Imagens: fotografias de Luís Humberto)

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