Os viajantes e a antropologia

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
"Não sei o que pensar! Nunca acreditei em fantasmas, só que..."  -  Mickey  -  Os sete fantasmas

No século XIX o Brasil e outros países da América do Sul foram visitados por grupos de viajantes, geralmente a serviço de países europeus ou de grupos de interesse econômico. No Brasil teve grande influência a abertura dos portos às nações amigas, promovida por D. João VI, quando se mudou com a corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Em suas viagens estas delegações eram compostas por mineralogistas, geógrafos, botânicos, pintores e desenhistas que elaboravam diários e relatórios, desenhavam mapas e retratavam a população e a natureza. Muitas vezes estes relatos são repletos de julgamentos tendenciosos e análises superficiais de aspectos culturais e econômicos. Sob a ótica de sua própria cultura, estes viajantes analisavam as práticas sociais e culturais da sociedade brasileira à época.
Estes visitantes, em sua visão unilateral, não conseguiam conceber que poderiam existir outras formas válidas de cultura; maneiras diferentes de relacionar-se com o meio ambiente natural e de organizar o ambiente social. Os brasileiros, em muitos autores, são classificados como preguiçosos, libidinosos, carolas, vaidosos e ignorantes. Os europeus julgavam que somente seu ponto de vista era válido e, desta forma, mais evoluído – o ponto de vista da cultura européia. Auguste de Saint-Hilaire, por exemplo, famoso botânico francês viajou pelo Brasil entre 1816 e 1822. Deixou vários comentários tendenciosos sobre aspectos da religiosidade; retratou os campos mineiros como “um misto de desordem e regularidade selvagem”; e desvalorizou as obras de arte das igrejas no interior do Brasil. Outros viajantes da mesma época como os alemães Spix e Martius elogiaram a exuberância da natureza, estudaram as plantas brasileiras e os costumes dos indígenas. Alemães, franceses, ingleses e russos viajaram pelo país, comentaram seus costumes e sua exuberância natural, mas sempre sob uma perspectiva européia.
Quase cem anos depois destes fatos, o alemão que imigrou para os Estados Unidos, Franz Boas, um os precursores da antropologia cultural no inicio do século XX, escreveu: “A compreensão de uma cultura estrangeira só pode ser alcançada pela análise, e somos compelidos a apreender seus vários aspectos sucessivamente. Além disso, cada elemento contém traços claros das mudanças que sofrem no tempo. Estas podem se dever a forças internas ou à influência de culturas estrangeiras. A análise completa precisa necessariamente incluir fases que levaram à forma atual.” (Boas, 2004, pág. 59).
A visão de mundo que inspiraria as descrições destes viajantes sobre a vida no Brasil é caracteristicamente européia. Em visita ao Brasil, então colônia de Portugal, observam os costumes dos habitantes locais, que não têm a sofisticação material da vida nos países europeus de ponta da época (Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, entre os principais). Influenciados por sua cultura e sem conhecimentos ou senso crítico suficiente capaz de relativizar seus próprios costumes, julgam a cultura dos brasileiros como primitiva, característica de um povo longe dos padrões da “civilização européia”. Em seus comentários, não conseguem ver que: “Se conseguirmos desse modo dominar o significado de culturas estrangeiras, também devemos estar aptos a ver quantas de nossas linhas de comportamento – que acreditamos estar profundamente fundadas na natureza humana – são na realidade impressões de nossa cultura e estão sujeitas a alterações produzidas por mudança cultural. Nem todas as nossas normas são categoricamente determinadas por nossa qualidade de seres humanos: várias delas mudam com as circunstâncias.” (Boas, 2004, pág. 109).
A partir do século XX o estudo de outros povos evolui com a antropologia, que chegou também a ter funções militares. A idéia básica por trás da iniciativa estava em estudar determinadas culturas, conhecer-lhes os aspectos de interesse aos fins de uma potência da época (os países já citados acima) – principalmente suas idiossincrasias – e explorá-las a favor (do país, de grupos sociais, de interesses econômicos, etc.).  Um exemplo simples disso, mas bastante significativo, está na história brasileira dos primeiros tempos. No final do século XVII, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, estava acuado pelos índios goitacazes no sertão de Minas Gerais. Tomou um pouco de aguardente, colocou-a em uma vasilha e pôs-lhe fogo, dizendo que faria o mesmo com os rios, caso os indígenas atacassem seu grupo. Os goitacazes, com medo, chamaram-no de Anhangüera, que quer dizer “diabo velho”. O bandeirante sabia que os índios não conheciam a bebida destilada e usou este fato em seu favor. Explorou assim um aspecto da cultura indígena em benefício próprio – ou pelo menos para salvar sua vida e a de seu grupo.   
Um dos mais famosos casos de utilização da antropologia para fins militares foi o caso da antropóloga americana Ruth Benedict. Estudante da cultura japonesa, Benedict foi convocada pelo governo americano para que estudasse a cultura japonesa com fins militares. Fez uma série de pesquisas durante a guerra e depois foi estudá-la in loco, no Japão. Cita a antropóloga “Em junho de 1944, recebi o encargo de estudar o Japão. Pediram-me que utilizasse todas as técnicas que pudesse, como antropóloga cultural, a fim de decifrar como seriam os japoneses.” (...) “Em junho de 1944, trata-se, portanto de responder a uma multidão de perguntas sobre o nosso inimigo, o Japão” (...) (Benedict, 1988, págs. 11 e 12).
Em seu livro “O crisântemo e a espada”, Benedict passa a descrever a sociedade japonesa, gerando informações que ajudaram o governo americano a cooptar o Japão depois da Guerra, integrando-o à comunidade das nações alinhadas, em oposição àquelas perfiladas à União Soviética. Desta forma, a antropologia ajudou no esforço de guerra e contribuiu para fortalecer aspectos da Guerra Fria.
Bibliografia:
Boas, Franz, Antropologia Cultural, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, 109 págs.
Benedict, Ruth, O crisântemo e a espada, São Paulo: Editora Perspectiva, 1988, 264 págs.
(Imagens: fotografias de Haruo Ohara)

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