A "Crítica da Razão Pura" de Kant e o desenvolvimento da Ciência

domingo, 19 de agosto de 2012
"O Nirvana está aqui e agora, no meio do Samsara, e não há problema de ele ser um estado de unidade distinto de um estado de multiplicidade: tudo depende da nossa própria compreensão interior." - Alan Watts - O Espírito Zen

A ciência teve um grande desenvolvimento a partir do Renascimento, com a introdução da matemática e da experimentação ao processo de pesquisa científica. Efetivamente, tais práticas não existiam – pelo menos como método regular – na Idade Média, já que neste período se tinha uma idéia formada do funcionamento do mundo baseada na filosofia de Aristóteles. O filósofo grego influenciou o pensamento oficial da Igreja Católica a partir do século XIII, tornando-se o inspirador da filosofia tomista. Para esta escola filosófica a natureza estava explicada; o que não se conseguia explicar com os conhecimentos disponíveis era objeto de fé.
No período do Renascimento os artistas-cientistas, como Leonardo da Vinci e os cientistas-filósofos, como Francis Bacon, passam a valorizar o uso da matemática (da Vinci) e do experimento (Bacon) nas ciências. Além disso, Copérnico e Kepler, ambos fazendo uso de cálculos matemáticos, provocam uma revolução na visão de mundo da época, quando demonstram (mais tarde comprovado com o uso de telescópios) de que a Terra não era o centro do universo (conhecido) e sim o Sol.
Entre os séculos XVII e XVIII surge Isaac Newton, cientista e matemático, que irá influenciar profundamente a filosofia de Kant. Newton desenvolve a teoria da gravitação universal, que explicará grande parte do funcionamento do universo em sua época, com a ajuda da matemática. Por outro lado, também na Inglaterra, surge no mesmo século o pensador David Hume, que com seu ceticismo colocará em dúvida a ciência da época e, principalmente, todo o conhecimento. Hume critica o princípio de causalidade, como um simples hábito mental, baseado na experiência freqüente de certos acontecimentos. Entre a lei de gravitação de Newton e a negação do princípio de causalidade por Hume, Kant tem um choque e acordo de seu “sono dogmático”.
A crítica de Hume não é somente contra a metafísica e a estrutura da ciência, mas contra a razão em si. Kant decide, depois de longo período de meditação, escrever uma obra que descrevesse o método pelo qual podemos obter um verdadeiro conhecimento do mundo, baseado em critérios racionais. Tal obra é a “Crítica da Razão Pura”.
Inicialmente, Kant estabelece uma distinção entre o conhecimento “a priori”, que independe de qualquer sensação, e o conhecimento “a posteriori”, que depende de uma sensação. Em seguida, Kant propõe a distinção entre juízos analíticos, “aqueles em que a conexão do predicado e do sujeito for pensada por identidade” (Kant, p.10) e juízos sintéticos, “aqueles em que esta conexão for pensada sem identidade” (Kant p.10). Daí Kant conclui que os juízos da experiência são todos sintéticos, mas que “a física contém, como princípios, juízos sintéticos a priori. Como exemplo, citarei duas proposições: nas alterações do mundo corpóreo a quantidade de matéria continua sempre a mesma, ou, nas comunicações de movimento, ação e reação precisam ser sempre iguais” (Kant p.13).  
Na Introdução da Crítica da Razão Pura, Kant pergunta: “Como a matemática pura é possível?” e “Como a ciência pura da natureza é possível?” Através de sua obra o pensador estabelece as condições nas quais a matemática (a priori sintético) e a ciência são possíveis, na pessoa do Sujeito Transcendental; princípios admitidos por Kant que possibilitam o conhecimento.
Com isso, a principal influência de Kant sobre o desenvolvimento da ciência foi estabelecer novas teorias epistemológicas, que (pelo menos por um certo período na história do pensamento ocidental) fixaram as condições nas quais poderíamos dizer que nossa interação com o mundo tem base real, de modo a validar nossos raciocínios, inclusive a interpretação científica da realidade.
O pensamento kantiano, posteriormente, foi criticado por diversos autores, sob diversos aspectos, não sendo mais universalmente aceito como critério de validação da ciência. Mas isto já é outro capítulo do pensamento filosófico ocidental.
Bibliografia
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo. Ícone Editora: 2007, 541 p.
(Imagens: fotografias de Michel Rajkovic)

2 comentários:

Caroline Guerra disse...

Parabéns pelo post! Ajudou muito mesmo! Obrigada

Caroline Guerra disse...

Parabéns pelo post! Ajudou muito mesmo! Obrigada

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