Pesquisas médicas e a biodiversidade amazônica

quinta-feira, 16 de agosto de 2012
"Toda a nossa vida é, na verdade, uma fábula; nosso conhecimento, uma asneira; nossas certezas, uma ilusão; resumindo, todo este mundo é apenas uma farsa, uma perpétua comédia."  -  La Mothe Le Vayer, citado por Georges Minois em História do Riso e do Escárnio

Já faz alguns anos que ouvimos especialistas dizendo que a cada hectare de floresta amazônica derrubada, são diminuídas as nossas chances de encontrarmos remédios para nossas doenças ainda incuráveis. Não há exagero algum nesta declaração. É fato que cerca de metade dos medicamentos mais importantes para a medicina foram sintetizados a partir de moléculas da natureza. A tendência, segundo especialistas, é que o desenvolvimento de novos remédios continue desta maneira. Assim, as curas dos nossos males podem estar na seiva de uma planta, no veneno de uma aranha, na pele de um sapo, mas enzimas de uma bactéria ou em um fungo. O desconhecimento da ciência nesta área ainda é muito grande, mas as pesquisas avançam a cada dia.
Do ponto de vista ecológico todos os seres vivos estão ligados por uma teia de relacionamentos; todo o ser vivo tem sua importância nesta estrutura. Com o desaparecimento de diversas espécies, a teia torna-se mais fraca, até que em determinado momento ela se rompe. A mesma coisa é dita em outras palavras pelo físico e pensador da ecologia Fritjof Capra, quando escreve em seu “A teia da vida”: “Em última análise – como a física quântica mostrou de maneira tão dramática – não há partes em absoluto. Aquilo que denominamos parte é apenas um padrão numa teia inseparável de relações.” (Capra, 2004, pg. 47).
Um exemplo prático desta visão são os produtos agrícolas que consumimos diariamente. Cada vegetal é resultado da ação de milhares de organismos que vivem na terra, como os fungos fixadores de hidrogênio, que não são vistos, mas tem papel importantíssimo para a fertilidade do solo. O uso excessivo de agrotóxicos pode acabar eliminando grande parte destes fungos, reduzindo a produtividade agrícola.
Especialistas informam que muitas substâncias terapêuticas são encontradas nas plantas. O vegetal conhecido como “pervinca de Madagascar”, por exemplo, é origem de duas drogas importantes, usadas na cura do câncer infantil. Outro exemplo é o da árvore originária do oeste dos Estados Unidos, fonte de uma droga eficiente na cura de câncer de ovário. Antes da descoberta das propriedades curativas na planta, esta era queimada e considerada sem valor.
Outro fato apontado pelos bioquímicos é que a ciência médica continua a depender de produtos naturais, apesar do desenvolvimento das drogas inteligentes, destinadas a atingir alvos específicos. A vantagem do remédio natural é já estar com seu princípio ativo pronto. Enquanto isso, a droga inteligente demanda anos de pesquisa e grandes investimentos – fato que encarece o produto quando colocado no mercado, anos depois. Enquanto a ciência descobre, a cada, dia mais motivos para estudar a biodiversidade amazônica – e com isso justificar cada vez mais sua preservação e exploração racional – os governos envolvidos com a questão, em todos os níveis, continuam a tratar o assunto como secundário. Todavia, uma coisa está patente: se não convocarmos especialistas e não programarmos ações de médio e longo prazo efetivamente eficientes, a Amazônia perderá grande parte da floresta nos próximos 50 a 100 anos.
Cabe perguntar quem efetivamente está ganhando com a situação atual da Amazônia e por isso tem interesse em manter tudo como está – sem planejamento ou controle.
(Imagens: fotografias de Elio Ciol) 

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