“Se a beleza do cenário geográfico da cidade encantava a maioria da corte portuguesa que desembarcava no porto do Rio, os primeiros dias mostrariam a precariedade da estrutura da nova capital. ‘Numa pequena área espremida entre a praia e a montanha, formada por escassas ruas paralelas e mais algumas transversais, rodeadas por matas e logradouros desertos, mais de dez mil pessoas foram alojadas às pressas, com a chegada da Família Real, transformando a pequena cidade dos vice-reis em capital do império português na América’, descreve a historiadora Leila Mezan Algranti (1988:26).
Para acomodar os acompanhantes da corte, o conde dos Arcos instituiu o sistema de aposentadorias que, na prática, requisitava as casas dos moradores locais para aconchego da nobreza. Na porta de muitas casas foram pregadas as letras PR – Príncipe Regente –, interpretadas pela população como Ponha-se na Rua. ‘O afluxo de uma grande quantidade de pessoas agravou os problemas urbanos. Além da falta de moradia, havia carência no abastecimento de água, saneamento, segurança pública’, descreve o historiador Paulo de Assunção (2008:88). Essa situação causou um enorme rebuliço tanto para a população que ficava desabrigada, quanto para a nobreza portuguesa que considerava as moradias desconfortáveis, mal construídas e sem o luxo das suas residências em Lisboa. Já a população mais pobre ficou marginalizada à região norte da cidade, circunscritas aos bairros de Catumbi e Mata-Porcos. Nesse espaço, as habitações se restringiam a choças aglomeradas entre os morros e o mar, o que já marcava a profunda desigualdade social no especo geográfico (Lima, 2000:106).”
“O contato cada vez maior com a
cultura europeia também estimulava um novo hábito na Corte: difundia-se o
costume de almoçar fora de casa, nas denominadas casas de pasto, que serviam
diariamente diferentes cardápios pré-estabelecidos com preços também já previamente
fixados pelo comerciante. Tais mudanças na prática incentivam a procura por
cozinheiros, um ofício bem remunerado. Em 1808, ‘um cozinheiro que soubesse
trabalhar de caçarolas e massas ganharia por mês 14 $000 réis, mais do que
muitos letrados obtinham em suas aulas’, elucida a historiadora Maria Beatriz
Nizza da Silva (2007:35). A sobremesa teve seu espaço garantido. Em julho de
1813, Vicente Ferreira, o ilustre chocolateiro da princesa Carlota Joaquina,
abria uma fábrica de chocolate na rua do Ouvidor, n.28. Para além da venda de
todas as qualidades de chocolate, a loja vendia ainda extratos de manteiga de
cacau para a produção de outros doces (Gazeta do Rio de Janeiro, 1813, N 58). A
diversidade e a quantidade dos gêneros que foram importados nos Reinos de
Portugal e Brasil durante 1816 foram tema de destaque da folha oficial, tamanha
era a preponderância do comércio interatlântico de alimentos dentro dos limites
do Império Português.”
Juliana Gesuelli Meirelles, doutora em história política pela UNICAMP e professora brasileira em A família real no Brasil: política e cotidiano (1808-1821)


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