“É
apropriado reconhecer que a linguagem é, em grande parte, um acidente
histórico. As línguas humanas básicas são tradicionalmente transmitidas a nós
em várias formas, mas sua própria multiplicidade prova que não há nada de
absoluto e necessário nelas. Assim como línguas como o grego ou o sânscrito são
fatos históricos e não necessidades lógicas absolutas, é razoável supor que a
lógica e a matemática sejam formas de expressão igualmente históricas e
acidentais. Elas podem ter variantes essenciais, ou seja, podem existir em
outras formas além daquelas às quais estamos acostumados. De fato, a natureza
do sistema nervoso central e dos sistemas de mensagens que ele transmite
indicam positivamente que isso é assim.
Agora
acumulamos evidências suficientes para ver que, qualquer que seja a linguagem
que o sistema nervoso central esteja usando, ela é caracterizada por menos
profundidade lógica e aritmética do que aquela a que estamos normalmente
acostumados. O seguinte é um exemplo óbvio disso: a retina do olho humano
realiza uma reorganização considerável da imagem visual percebida pelo olho.
Ora, essa reorganização é efetuada na retina, ou para ser mais preciso, no
ponto de entrada do nervo óptico, por meio de apenas três sinapses sucessivas,
ou seja, em termos de três etapas lógicas consecutivas. O caráter estatístico
do sistema de mensagens usado na aritmética do sistema nervoso central e sua
baixa precisão também indicam que a degeneração da precisão, descrita
anteriormente, não pode ir muito longe nos sistemas de mensagens envolvidos.
Consequentemente,
existem aqui estruturas lógicas diferentes daquelas com as quais estamos normalmente
acostumados em lógica e matemática. Elas são, como apontado anteriormente,
caracterizadas por menos profundidade lógica e aritmética do que estamos
acostumados em circunstâncias semelhantes. Assim, a lógica e a matemática no
sistema nervoso central, quando vistas como linguagens, devem ser
estruturalmente essencialmente diferentes daquelas linguagens às quais nossa
experiência comum se refere.”
John von Neumann (1903-1957), matemático, físico, engenheiro
húngaro-estadunidense e um dos cientistas da computação precursores da moderna
informática. Desenvolveu o conceito moderno do computador. Trecho de sua
palestra (livro) O Computador e o Cérebro
(The Computer and The Brain)


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