Outras leituras

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 

“É apropriado reconhecer que a linguagem é, em grande parte, um acidente histórico. As línguas humanas básicas são tradicionalmente transmitidas a nós em várias formas, mas sua própria multiplicidade prova que não há nada de absoluto e necessário nelas. Assim como línguas como o grego ou o sânscrito são fatos históricos e não necessidades lógicas absolutas, é razoável supor que a lógica e a matemática sejam formas de expressão igualmente históricas e acidentais. Elas podem ter variantes essenciais, ou seja, podem existir em outras formas além daquelas às quais estamos acostumados. De fato, a natureza do sistema nervoso central e dos sistemas de mensagens que ele transmite indicam positivamente que isso é assim.

Agora acumulamos evidências suficientes para ver que, qualquer que seja a linguagem que o sistema nervoso central esteja usando, ela é caracterizada por menos profundidade lógica e aritmética do que aquela a que estamos normalmente acostumados. O seguinte é um exemplo óbvio disso: a retina do olho humano realiza uma reorganização considerável da imagem visual percebida pelo olho. Ora, essa reorganização é efetuada na retina, ou para ser mais preciso, no ponto de entrada do nervo óptico, por meio de apenas três sinapses sucessivas, ou seja, em termos de três etapas lógicas consecutivas. O caráter estatístico do sistema de mensagens usado na aritmética do sistema nervoso central e sua baixa precisão também indicam que a degeneração da precisão, descrita anteriormente, não pode ir muito longe nos sistemas de mensagens envolvidos.

Consequentemente, existem aqui estruturas lógicas diferentes daquelas com as quais estamos normalmente acostumados em lógica e matemática. Elas são, como apontado anteriormente, caracterizadas por menos profundidade lógica e aritmética do que estamos acostumados em circunstâncias semelhantes. Assim, a lógica e a matemática no sistema nervoso central, quando vistas como linguagens, devem ser estruturalmente essencialmente diferentes daquelas linguagens às quais nossa experiência comum se refere.”

 

John von Neumann (1903-1957), matemático, físico, engenheiro húngaro-estadunidense e um dos cientistas da computação precursores da moderna informática. Desenvolveu o conceito moderno do computador. Trecho de sua palestra (livro) O Computador e o Cérebro (The Computer and The Brain)

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